O país vendeu 226,5 mil imóveis no primeiro semestre, 5,4% mais que em 2025, sustentado pelo crédito subsidiado do Minha Casa Minha Vida. O detalhe que merece atenção é o outro lado: vendeu-se mais do que se lançou, e estoque menor costuma virar pressão de preço adiante.
O mercado imobiliário brasileiro comercializou 226.536 unidades residenciais entre janeiro e junho de 2026, uma alta de 5,4% sobre as 214.910 unidades vendidas no mesmo período de 2025, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. Só no segundo trimestre foram 113.676 unidades, 5,3% acima do mesmo trimestre do ano passado. É um número que contraria a intuição: como o país vende mais imóveis num ambiente de juro real entre os mais altos do mundo?
A resposta está menos no crédito livre e mais no crédito subsidiado. O Minha Casa Minha Vida registrou participação recorde nas vendas do semestre, e os indicadores da ABRAINC em parceria com a Fipe mostram o programa como principal motor da expansão — com alta de 20,8% em unidades lançadas na janela de doze meses até janeiro de 2026, dentro de um avanço geral de 19,3% nos lançamentos do setor. Quando o financiamento é subsidiado e a taxa não acompanha a Selic, a decisão de compra deixa de depender da política monetária.
Isso explica também por que os dois mercados se comportam de forma diferente. O imóvel de faixa mais alta, financiado a preço de mercado, sente o juro de forma direta: a parcela sobe, a renda exigida sobe e o comprador adia. Já a faixa atendida pelo programa habitacional opera com regras próprias de taxa e prazo, e responde muito mais à ampliação de limites e de faixas de renda do que ao que o Copom decide.
O mercado vendeu mais, mas não lançou na mesma proporção
Há um segundo movimento na mesma conta, e esse é o que merece atenção. Os lançamentos do segundo trimestre somaram 107.161 unidades: subiram 2,6% em relação ao trimestre anterior, mas caíram 1,3% na comparação com o mesmo trimestre de 2025. Ou seja, vendeu-se mais do que se lançou. Quando isso se repete por alguns trimestres, o estoque disponível encolhe.
E estoque menor com demanda firme é a receita clássica de pressão de preço. Não é um efeito imediato — a construção civil tem ciclos longos, e um lançamento decidido hoje chega ao mercado daqui a um ou dois anos. Mas é o tipo de sinal que costuma aparecer primeiro nos dados de oferta e só depois na etiqueta, o que dá alguma vantagem de tempo a quem está acompanhando.
Para quem está pensando em comprar, a leitura útil não é “corra antes que suba”. É outra: verifique primeiro em qual mercado você está. Se a sua faixa de renda se encaixa no programa habitacional, a variável que mais mexe com a sua parcela é a regra do programa, não a Selic — e vale acompanhar mudanças de faixa e de teto de valor do imóvel com mais atenção do que as reuniões do Copom.
Se, por outro lado, a sua compra depende de financiamento a preço de mercado, a lógica se inverte. Aí a queda da Selic importa, e importa com defasagem: os bancos não repassam corte de juro no dia seguinte, e a taxa contratada é a que vale por décadas. Nesse cenário, a comparação de Custo Efetivo Total entre instituições costuma render mais economia do que tentar acertar o mês exato da compra.
Vale uma ressalva sobre o que esses números são e não são. Eles medem o mercado primário — unidades vendidas por incorporadoras — e não capturam o mercado de revenda entre pessoas, que é maior e se move por outra dinâmica. Um semestre forte no lançamento não significa necessariamente que o imóvel usado do seu bairro valorizou na mesma proporção.
Fonte: Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), dados de vendas e lançamentos do primeiro semestre de 2026, e indicadores ABRAINC/Fipe.