Poupança tem o pior mês de saques desde 2022: por que os brasileiros estão tirando dinheiro da caderneta

Em julho, os brasileiros sacaram R$ 7,152 bilhões a mais da poupança do que depositaram, segundo dados do Banco Central divulgados na última sexta-feira. É o pior resultado mensal da caderneta desde 2022 e um agravamento em relação a junho, quando o saldo já havia ficado negativo em R$ 237,5 milhões. Somando os sete primeiros meses de 2026, a poupança já perdeu R$ 46,5 bilhões a mais em saques do que recebeu em depósitos — um sinal de que essa fuga não é um evento isolado, mas uma tendência que se arrasta ao longo do ano.

O movimento também piorou na comparação anual: em julho de 2025, o saldo negativo tinha sido de R$ 6,251 bilhões, menor do que o registrado agora. Na prática, foram movimentados R$ 370,7 bilhões em depósitos contra R$ 377,9 bilhões em retiradas só no mês passado — uma diferença que, mesmo pequena perto do total movimentado, se repete mês após mês e vai corroendo o saldo geral da caderneta, hoje em R$ 1,019 trilhão.

O motivo por trás desse comportamento não é mistério: a rentabilidade da poupança é travada por regra própria. Sempre que a Selic está acima de 8,5% ao ano — como agora, em 14% —, a caderneta rende apenas 0,5% ao mês mais a taxa referencial (TR), independentemente de quanto a taxa básica de juros suba. Outras aplicações de baixo risco, como CDBs e o Tesouro Selic, costumam pagar um percentual do CDI, que acompanha a Selic de perto. Quanto maior a Selic, maior fica a distância entre o que a poupança paga e o que essas alternativas conservadoras oferecem — e é justamente esse tipo de cenário que costuma acelerar a saída de dinheiro da caderneta.

Vale lembrar que a poupança segue tendo vantagens que explicam por que ainda concentra mais de R$ 1 trilhão em recursos: isenção de Imposto de Renda sobre o rendimento, ausência de taxas de administração e liquidez imediata, sem prazo de carência para resgatar o valor investido sem perder rentabilidade. O problema é que hoje já existem outras aplicações de baixo risco — como CDBs de liquidez diária e o Tesouro Selic — que oferecem essas mesmas vantagens práticas (isenção ou baixa tributação, liquidez rápida, risco baixo) pagando, na maioria dos casos, mais do que a caderneta.

Isso não significa que a poupança tenha deixado de fazer sentido para todo mundo. Para quem guarda valores pequenos, tem dificuldade de mexer com aplicativos de investimento ou prioriza a simplicidade acima de tudo, ela ainda cumpre um papel. O ponto é que, quanto maior o valor guardado e quanto mais alta a Selic, maior é o custo de oportunidade de deixar o dinheiro parado ali em vez de comparar outras opções de baixo risco disponíveis nos próprios aplicativos de banco e corretoras.

Esse movimento de saída também ajuda a explicar por que o tema voltou à pauta econômica nesta semana: depois de o Copom cortar a Selic para 14% ao ano no início do mês, muita gente esperava que a poupança voltasse a ficar mais competitiva. Mas, como a taxa básica segue bem acima do patamar de 8,5% que muda a fórmula da caderneta, essa distância entre poupança e outras aplicações conservadoras continua praticamente a mesma — e é isso que os dados de julho acabam de confirmar na prática.

Para quem tem dinheiro parado na poupança há anos sem revisar, esse é um bom momento para ao menos comparar: olhar o rendimento anual da própria conta, comparar com um CDB de liquidez diária ou o Tesouro Selic no aplicativo do próprio banco ou de uma corretora, e decidir com base em números — e não apenas no hábito de deixar tudo no mesmo lugar de sempre.

Fonte: Banco Central do Brasil, dados divulgados em 7 de agosto de 2026.

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