Por que seu título de renda fixa aparece com prejuízo no app — e por que isso quase nunca é um problema

Em 30 segundos

Marcação a mercado é o preço do título se você vendesse hoje, não o que vai receber no vencimento. Quando a taxa dos títulos novos sobe, o preço dos antigos cai — e vice-versa. Levando até o fim do prazo, você recebe exatamente a taxa contratada.

Uma das cenas mais desconcertantes para quem começa a investir é abrir o aplicativo, olhar um título de renda fixa — aquele que foi comprado justamente por ser “seguro” — e encontrar um número negativo do lado. O investimento era garantido, o país não quebrou, o título não venceu, e mesmo assim a tela mostra prejuízo. O nome desse fenômeno é marcação a mercado, e entendê-lo evita uma das decisões mais caras que um investidor pode tomar.

A explicação começa por uma regra simples: preço e taxa de um título andam em direções opostas. Imagine que você comprou um título que paga 13% ao ano. Semanas depois, o mercado passa a oferecer títulos parecidos pagando 15%. O seu, que paga menos, perdeu atratividade — se você quisesse vendê-lo hoje, precisaria aceitar um desconto para que alguém preferisse o seu papel ao novo. Esse desconto é o prejuízo que aparece na tela.

O contrário também vale, e é o que vem acontecendo em 2026. As taxas do Tesouro caíram para o menor nível desde maio, com o Prefixado 2029 a 13,86% ao ano e o IPCA+ 2032 a 7,93% acima da inflação. Quem comprou esses títulos quando as taxas eram mais altas está vendo o preço subir: o papel antigo, que paga mais do que os novos, virou item disputado. É o mesmo mecanismo, na direção agradável.

A regra que explica tudo

A relação inversa entre a taxa de juros do mercado e o preço de um título já comprado

Taxa sobe · preço do títulocaiTaxa cai · preço do títulosobeNo vencimentotaxa contratada
Um título antigo só fica mais valioso se os novos passarem a pagar menos — e vice-versa. No vencimento, o preço converge para o valor combinado e a oscilação desaparece. Fonte: Tesouro Nacional.

O ponto que desfaz o susto é este: a marcação a mercado mostra quanto o título vale se você vender hoje. Ela não altera em nada o combinado original. Se você levar o papel até o vencimento, recebe exatamente a taxa contratada no dia da compra — 13,86% ao ano no prefixado, ou a inflação mais 7,93% no IPCA+. A oscilação no meio do caminho é ruído de trajetória, não mudança de destino.

Tecnicamente, o que acontece é que o preço do título converge para o valor de resgate à medida que o vencimento se aproxima. Faltando cinco anos, há muito espaço para a expectativa de juros mudar e mexer no preço. Faltando três meses, quase não há. É por isso que as oscilações são mais violentas em títulos longos e praticamente inexistentes em títulos curtos — e é por isso que o Tesouro Selic, cujo preço acompanha a taxa diária, quase não apresenta esse efeito.

Daí sai a regra prática mais útil sobre o assunto: case o prazo do título com o prazo do seu objetivo. Dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento — reserva de emergência — não deveria estar em título longo, justamente porque a data do saque seria decidida pela urgência, e não por você. Dinheiro com data marcada, como a entrada de um imóvel daqui a seis anos, combina com um título que vence perto dessa data.

O erro que a marcação a mercado costuma provocar é o pior possível: vender no susto. O investidor vê o vermelho, interpreta como perda definitiva, resgata — e aí sim transforma uma oscilação de papel em prejuízo real, abrindo mão da taxa que havia contratado. O inverso também acontece: há quem venda cedo demais só porque apareceu um lucro na tela, sem perceber que está trocando um juro alto travado por um juro menor disponível hoje.

Fonte: Tesouro Nacional, regras de precificação e recompra do Tesouro Direto; taxas de referência de setembro de 2026.

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