Depois de anos fora do radar, os multimercados voltam a atrair o investidor brasileiro

Os fundos multimercados somaram R$ 11,2 bilhões em captação líquida no primeiro trimestre de 2026 — a primeira vez desde 2022 que a categoria fecha um trimestre com saldo positivo. O número marca uma virada de comportamento depois de quase quatro anos em que o investidor brasileiro preferiu, de forma quase unânime, ficar preso à renda fixa mais simples e previsível.

Essa preferência fazia sentido enquanto a Selic esteve nas máximas dos últimos anos: com o CDI rendendo próximo de 15% ao ano sem risco de crédito relevante, poucos produtos justificavam a complexidade extra de um fundo multimercado, que combina renda fixa, renda variável, câmbio e outras estratégias em busca de retorno acima do CDI. Por que se arriscar, se o “sem risco” já pagava tão bem?

O cenário começou a mudar com o ciclo de cortes da Selic. As projeções de mercado apontam a taxa encerrando 2026 perto de 12,5% ao ano — ainda um patamar elevado para padrões internacionais, mas abaixo do que se via nos últimos anos. Com o CDI recuando, o retorno da renda fixa mais simples também recua junto, e o espaço para produtos que buscam retorno adicional através de gestão ativa volta a ficar mais interessante na comparação.

Isso não significa que a renda fixa deixou de fazer sentido — longe disso. Fundos de renda fixa também tiveram valorização de 3,4% só no primeiro trimestre de 2026, ficando acima do CDI no período, o que mostra que a categoria continua entregando resultado consistente. O que muda é o espaço relativo: com o custo de oportunidade da renda fixa mais simples caindo, ativos de maior risco, incluindo renda variável, voltam a ganhar relevância como forma de diversificação dentro de uma carteira.

Vale registrar que fundo multimercado não é uma categoria única — dentro dela existem desde estratégias mais conservadoras, com baixa exposição a renda variável e câmbio, até fundos com apostas mais agressivas e volatilidade bem mais alta que a renda fixa tradicional. Dois fundos multimercado podem ter perfis de risco completamente diferentes apesar de estarem na mesma prateleira — a taxa de administração, o histórico de volatilidade e a estratégia declarada no regulamento do fundo dizem mais sobre o risco real do que o rótulo da categoria.

Para quem está decidindo se acompanha essa migração, o ponto de atenção não deveria ser seguir a tendência por seguir, mas entender se o motivo por trás dela — juros mais baixos reduzindo o custo de oportunidade da renda fixa simples — de fato se aplica ao seu horizonte e à sua tolerância a oscilação. Diversificação tem função clara em uma carteira, mas ela pressupõe entender o que está sendo adicionado, não apenas migrar porque o resto do mercado está migrando.

Fonte: dados de captação de fundos de investimento do primeiro trimestre de 2026 e projeções de mercado para a Selic, compilados por casas de análise e gestoras.

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